segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

SONETO DA VINDA - Ilustrações de Túlio

Soneto da Vida
Vim dar-me a ti. Sinto-te, vez em quando.
Nas sombras dos meus sonhos me acompanhas.
Musica dos teus olhos me embalando,
Me fazendo sonhar coisas estranhas.
Nao venho como estavas esperando.
Venho como sou: pobre, sem façanhas.
So posso dar-te um coraçao sangrando
Com o sai das minhas magoas nas entranhas ...
Vem, bebe em minha boca os meus soluços! (Ah! quantas vezes solucei de bruços sobre a angustia que boia em meu olhar!)
Sei que me vais dizer coisas amigas,
Sei que os teus olhos cantarão cantigas
E os meus, de alegres, vao querer chorar.
(BW)

O APARECIMENTO DE UM POETA - Rômulo Wanderley


O APARECIMENTO DE UM POETA

            Os jornais e as estações de rádio de Natal estão anunciando, para o meio-dia de hoje, no gabinete do Prefeito Djalma Maranhao, mais um livro de versos. O acontecimento seria sem maior importância se o poeta, autor desse livro, nao fosse um dos novos, cujos trabalhos tem merecido apreciações elogiosas dos mestres, alguns dos quais (Othoniel Menezes, "Cançao da Montanha") já Ihe ofereceram versos, num apreço muito significativo.
           "Telhado do Sonho" é o livro desse jovem que se chama Berilo Wanderley, e a quem conheço como a palma das minhas mãos. Somos amigos desde muitos anos. Tive-o em meus braços nos primeiros dias de sua infância e de lá para cá jamais dele me afastei. Por isso, julgo-me autorizado a falar sobre a sua pessoa, os seus primeiros passos na vida e nas letras, as suas traquinadas e os primeiros contatos com livros e cadernos, dos quais se tornou amigo e admirador.
             Ainda hoje me lembro dos primeiros versos que compôs. Embalando-se numa rede de alpendre, onde o pai costumava fazer a sesta e as leituras do dia, o menino de então se entretinha a cantar o que ouvira no rádio ou na "vitrola". E, quando não se lembrava de uma estrofe, substituía-a por outra de sua imaginação, de rima e métrica imperfeitas, com os defeitos próprios de um improvisador de sua idade.
            Eram, porém, manifestações de uma tendência que ninguém provocava e que despontava naturalmente, como falar e outras demonstrações da vida humana.
            Crescendo e estudando, foi fazendo versos que ele escondia dos seus, como quem guarda uma coisa proibida. No entanto, descoberto que o rapaz era poeta, não pode ele negar dos seus intímos, nem dos seus colegas e amigos, a vocaçao que Deus Ihe deu para encantamento do seu espírito e de quantos apreciam a Poesia.
(Rômulo Wanderley)

BERILO WANDERLEY - Woden Madruga

         Amanhã, 20, faz trinta anos da morte do poeta e cronista Berilo Wanderley. O Sebo Vermelho está reeditando o seu livro de estréia, Telhado do Sonho,  seu primeiro e único livro de poemas, publicado em 1956. O lançamento será no começo da noite de terça-feira, 21, no Lula Restaurante. Berilo começou no jornalismo nas páginas de Tribuna do Norte, ainda nos anos 50. E aqui escreveu a sua última coluna, Revista da Cidade, 20 de julho de 1979. Era uma sexta-feira. Berilo morreu no amanhecer  deste dia. Tinha 45 anos.  No sábado dediquei todo espaço do Jornal de WM à memória do querido amigo e companheiro. No mesmo rastro das saudades perenes, repito hoje o texto:
           “Lá se foi Berilo. Inacreditável a notícia de sua morte que nos chega como uma paulada ou um choque nos deixa entre incrédulo e brutalizado. Luís Carlos Guimarães, vizinho de frente, me tira da cama com o primeiro choque: Berilo teve um enfarte violento. Cinco minutos depois volta chorando: o poeta morreu!
            Eram sete horas. Meia hora depois, ele deveria, como fazia todas as manhãs, chegar à redação com sua coluna diária. Morrera às cinco, quando mais ou menos acordava, madrugador habitual, para escrever a sua “Revista da Cidade”. Foi com este título que há 23 anos começou a fazer jornal aqui mesmo na Tribuna do Norte.
            Berilo andava pela redação dando os primeiros passos na reportagem. A “Revista da Cidade” era uma coluna que eu assinava todos os dias já há algum tempo. Fui passar uns meses em Maceió e ele ficou de interino. Quando retornei, o poeta havia conquistado o espaço. A crônica leve, descontraída, o estilo simples, enxuto, a ironia fina, a farpa bem colocada, estava no gosto do leitor. Mexia com os assuntos do cotidiano, descobrindo tipos que ele encontrava pelos becos e bares da Cidade, contando histórias, registrando acontecimentos, ocorrências literárias da província, as primeiras descobertas da noite, a boemia entre amigos, recados para Maria Emília nas entrelinhas de suas anotações ou nos versos que publicava.
             Sexta-feira outra, uma noite na casa de Leda e Luís Carlos Guimarães, seus velhos amigos e companheiros, bebíamos vinhos e falávamos sobre os bons amigos. Luís Carlos era outro encantado com a prosa de Berilo. Este mesmo tema ocupou um bom pedaço de tempo de uma conversa que tive com Zila Mamede, na Fundação José Augusto. Berilo tinha que publicar o seu livro de crônicas. Difícil era convencê-lo, passar pelo seu despojamento, um pessoa sem vaidades. Berilo não pensava em publicar livro nenhum. Mas nós iríamos topar a empreitada.
           Quinta-feira conversamos pela última vez, aqui mesmo na redação, no começo da tarde. Veio trazer a “Revista da Cidade” de domingo, pois o Segundo Caderno dessa edição era fechado na sexta. Demorava pouco, entregava a matéria e se perdia num dedo de prosa com os colegas: literatura, cinema, música popular brasileira, vinhos. Era o que gostava de conversar. Quando não, quedava-se em ouvir e sempre o fazia assobiando um chorinho, um samba, qualquer outra música que apreciava. Na nossa conversa derradeira da quinta-feira folheamos juntos o último livro de Hélio Galvão e ele, que não era muito de elogiar, não deixou de admirar a profundidade o valor da obra. E discretamente como entrou, deixou a redação como um até logo.
           Éramos amigos há 26 anos. Conheci-o em rodas de poetas e boêmios na calçada da Sorveteria Cruzeiro. Berilo se destacava do grupo e chamava a atenção de todos não somente pela inquietude e a ironia fina, mas também porque gostava de usar uma varinha de bambu como se fora um marechal de campo. Mas a nossa amizade se firmou mesmo quando fomos convocados para servir no Exército. Decididamente foi o soldado mais desengonçado que passou pelo 16º. Regimento de Infantaria. O grupo está todo aí: Márcio Marinho, Varela Barca, Tota Zerôncio, Daniel Diniz, José Erb Ubarana, José Mesquita Filho, Aildo Gibson, Walderedo Nunes. Dos que me lembro agora enquanto tento, Deus sabe como, escrever essas coisas. Éramos os responsáveis pelo máquina burocrática do Regimento. O poeta exatamente, imagine, o encarregado do serviço do protocolo.
          Depois foi a fase da Faculdade de Direito. Fazíamos um jornalzinho “subversivo”, acho que a primeira experiência de imprensa alternativa. “O Porrete” era o nome do jornal, todo mimeografado e que nos dias mais incertos e inesperados aparecia causando furor nas salas de aulas do velho casarão da Praça Augusto Severo, onde hoje, veja só, funciona a Secretaria de Segurança. Foi por esse tempo, me parece que em 1956, que o poeta publicou o seu primeiro livro, Telhado do Sonho.
          O poeta navegava no seu lirismo. Tinha 22 anos de idade. Foi o único livro que publicou. Depois, o jornalismo foi consumindo o poeta. Nascia o excelente cronista, o crítico literário, o crítico de cinema, dividindo o tempo com uma promotoria pública e uma boemia que sempre o acompanhou. Esteve na Europa fazendo um curso no Instituto de Cultura Hispânica. Entre outras coisas, voltou doutor em vinhos, doutoramento que o levava quase religiosamente ao generoso balcão do bar de Nemésio, o espanhol. Também andou por terras de São Paulo e Rio de Janeiro, fazendo jornalismo. Mas o apelo da terrinha foi mais forte. Veio e retornou ao jornalismo diário e ao ensino.
            Fui reencontrá-lo na Fundação José Augusto, ensinando no Faculdade de Jornalismo Eloi de Souza. Depois na UFRN para onde fomos juntos com o curso. Quando assumi pela terceira vez editoria de Tribuna do Norte, nesta atual fase, fui buscá-lo na A República para assinar a sua “Revista da Cidade” em nosso Segundo Caderno.
           Nos últimos anos, conversávamos praticamente todos os dias. Ou aqui na redação ou pelas alamedas e salas de aula do Campus ou nas casas dos amigos comuns. Fora do trabalho, nos encontros sociais ou nos desencontros dos restaurantes e bares da Cidade, ele sempre ao lado de Maria Emília, sua mulher, companheira, amiga, um namoro do qual sou testemunha de seu nascimento. Trocávamos livros sobre os quais fazíamos comentários e tínhamos o mesmo gosto pelos bares quase vazios e uma queda para apontar o ridículo da província.
          Berilo Wanderley morreu aos 45 anos de idade. Deixa Maria Emilia, sua mulher, quatro filhos menores, sua mãe, Dona Maria Amélia, o irmão Gilberto. Deixa uma saudade enorme nos amigos, companheiros e uma legião de admiradores. Deixa uma enorme vazio nesta Cidade, hoje muito mais carente de valores humanos. Berilo morreu dormindo. O seu coração parou no alvorecer de Natal. Neste instante da tragicidade da vida, caberia aqui cantar um verso de um de seus poemas: “Passa o alento, passa o vento, já não sou”.

(Woden Madruga - 19/07/2009)

domingo, 26 de dezembro de 2010

BLOG LUZES DA CIDADE - Francisco Sombreira

 

Berilo Wanderley (1934-1979) foi o melhor cronista do Rio Grande do Norte. No mês em que se completa mais um aniversário de sua morte prematura, este blogue presta-lhe uma homenagem, com a publicação de duas crônicas, retiradas do seu livro póstumo "Revista da Cidade" ( EDUFRN/1994). BW foi também um brilhante crítico de cinema. Em vida, publicou o livro de poesia "Telhado de Sonho".



CHEIRO DE CHUVA
As madrugadas jão estão mais frias e as manhãs nos assaltam com um céu cinzento entrando pela janela. No pombal, os pombos amanhecem inquietos e festivos e o macho faz prosa arredondada de namorador em torno de sua fêmea. Há sinais de chuva pelo ar. As largas folhas das bananeiras acordam orvalhadas e os bogaris, a um canto do jardim, tomam jeito de véu de noiva, leves e rendados. Aspira-se um cheiro de chuva que, antes de vir, manda recados com boas notícias, que chegam através das plantas e das aves.
E as mulheres se tornam amantes mais ternas e atentas aos apelos dos seus homens, e nos gestos e na fala põem alguma coisa que as revela como aptas para as surpresas sempre renovadas do amor. Jeito de mulher acarinhar o homem traz prenúncio de inverno e só os maus amantes, ou aqueles homens dados ao capricho estranho de não gostar de mulher, ignoram esta verdade límpida.
Madrugadinha. Céu pesado de nuvens. Olha ali um bem-te-vi- me saudando lá daquele galho do pé de azeitona-da-terra!
A LUA
Um amigo nos chama a atenção para a lua, que ainda não tínhamos notado, mas que já andava, há quase uma semana, sobre os telhados da nossa cidade. Malditas obrigações que nos fazem esquecer uma lua! Mas, ontem, procuramos vê-la. Estava detrás de u'a mangueira e já vai muito grande e muito vermelha, o que é sinal que está a caminho do quarto minguante, ou de outro qualquer.
Lua por detrás de mangueira dá o que pensar. Parece que tem mais encanto do que se apresentando no alto do céu, completamente nua, despudorada. Também u'a mulher sem roupa, se esgueirando matreira por detrás de uma folhagem, chama a atenção dos nossos olhos mais do que se aparecesse sem mistérios, no meio da rua, cruazinha. É a mesma coisa. Lua escondida por detrás de mato é como mulher, idem, idem.
Outra beleza de lua escondida é a renda que ela forma pelo chão. A areia parece uma toalha estendida, toda rendada, feita de linha branca, de linha que desce em fios, das folhas das árvores, das palhas do coqueiro lá de frente.
Ai se não fosse essa lua! Tem razão em dizer isso o velho Drummond. Se não fosse essa lua, como é que os seresteiros de nossa cidade se iam arranjar, para sair de noite pelas janelas afora, entoando loas às donzelas e à lua, que é também donzela, embora nua?
E os namorados, que conversas teriam, sem uma lua assim, numa noite assim? E os poetas, os bissextos e os de todos os dias, os novos e os do parnaso, sempre contemporâneos?
Ah, se não fosse essa lua! Sintamos e gozemos este luar, mesmo sem casa de chá e sem agosto.
(Fonte: Blog Luzes da Cidade - Julho de 2006)

PRÊMIO FESTIVAL DE CINEMA DE NATAL - ANO 2010

               

PRÊMIO BERILO WANDERLEY 2010

Maria Emilia Wanderley, viúva do saudoso e inesquecível crítico de cinema da Tribuna do Norte, entregou o troféu ao critico e pesquisador cinematográfico Moacy Cirne, pela sua valiosa contribuição a divulgação da cultura fílmica no Rio Grande do Norte.

(Fonte: Refletores da Fama)

HOMENAGEM DO NORDESTE.COM - www.nordeste.com

Francisco Berilo Pinheiro Wanderley nasceu em Natal, a 21 de abril de 1934. De infância comum, aluno marista, recebeu uma educação literária, segundo ele, aquém de medíocre. Formado em Direito, ainda enfrentou a Promotoria Pública onde se desencantou. Em 1956, com apenas 22 anos de idade, reuniu alguns sonetos e poemas e publicou 'Telhado do Sonho;, seu único livro, com ilustrações do seu primo e amigo Newton Navarro. Poeta, cronista, trabalhou também como jornalista.

O poeta foi cedendo lugar ao jornalista, revelando um excelente cronista, crítico literário e de cinema. Na nova profissão, trabalhou no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas o apelo de sua terra foi mais forte. Foi professor do curso de Jornalismo da Fundação José Augusto e depois da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O Centro Acadêmico daquele curso, até hoje, leva seu nome.

Durante muitos anos, assinou a coluna Revista da Cidade, no jornal Tribuna do Norte. Tamanho talento tinha uma fonte inspiradora que era conhecida de todos: Maria Emília, sua mulher. Dessa união surgiram Henrique, Milena, Rômulo e Alexandre, além de linhas e linhas de poesias e crônicas, que imortalizaram o amor entre os dois.
Em 1994, quinze anos depois de sua morte, com o título de "Revista da Cidade", foi lançado um livro de contos, crônicas, poemas e fragmentos de Berilo Wanderley, organizado por Maria Emília Wanderley.

sábado, 25 de dezembro de 2010

CINEMA É ILUSÃO - Vicente de Serejo

CINEMA É ILUSÃO
               Uma vez, uma colega de jornal, entre o riso quase irônico e a  curiosidade invencível, perguntou a mim: você nao acha que Greta Garbo está muito velha para ser sua musa? Na epoca, e vivíamos os anos setenta, Garbo ainda estava viva. OIhei para minha companheira de redaçao e respondi como se titulasse uma história de amor: as musas são eternas. É o que repito hoje, bem trinta anos depois. Agora ela não esta mais viva. Mas, mesmo assim, ninguem nunca vai apagar do seu rosto aquele olhar mormaço.
               Esse toque de lembrança, há tempos guardado entre os guardados da alma, só tem importancia no plano das coisas superiores. Faz parte do mundo metafísico, como todas as coisas nascidas da ordem mágica da transcendência. Como a visita, numa noite antiga, que Marlene Dietrich fez ao poeta Berilo Wanderley. Aquela mulher bonita como a noite. Pernas longas e brancas, fugindo, passo a passo, pelo corte do vestido. E aqueles seus oIhos que segundo o poeta tinham a sensua1idade de uma onça no cio.
             Devo reconhecer, afinal a falta de humi1dade é pecado sem perdão, que Berilo sempre teve muita intimidade com as musas do cinema. Já no meu caso, menino do interior que fui, nunca passou de um exercício de comtemplação. Enquanto Berilo vivia com elas as grandes histórias de amor, a mim restava olhar de longe. E com tanta cerimônia - eu que nunca tive chance de receber a visita de Greta Garbo - que todos os meus encontros eram sempre casuais. Viviam distantes. Inalcançáveis, mágicas e sensuais.
               Marlene, apaixonada como era por Berilo que importa que seja coisa da imaginação! eu acredito. Mas, Greta Garbo, e o seu jeito de solidão, seria impossível. Não para exibi-la ao meu lado, - e seria cruel contra os  desafetos! - mas para tê-la comigo, de maos dadas, em longos passeios bem perto do mar. E quando me perguntassem quem era aquela mulher tão bonita e tão misteriosa, eu diria apenas que era uma velha amiga. E que viera de longe, só para me contar histórias de amor, mistério e solidão.
                Daí esse encantamento todas as vezes que leio Berilo Wanderley contando como foi a visita de Marlene Dietrich numa calma madrugada de Natal. Ele servindo uísque em copo pequeno e sem gelo, como ela gostava. Marlene tão bonita e tão íntima, e tão humana nos seus desejos de mulher. Marlene deitada no sofá da sala da casa do poeta. Agarrando firme o copo com as suas unhas que pareciam garras; com uma perna jogada pro alto e outra no chão. Marlene viva, inteira, com seu corpo chamas.
            Hoje, anos e anos depois, minha dúvida é a mesma de quando li a primeira vez: se estivesse lá, tomando uísque com Berilo, chamaria Maria Emilia ou ficaria em silêncio, solidário ao poeta, na mais bela visão que um amante de cinema pode ter na vida? Nao sei. Talvez chamasse. Talvez não. Mas, se chamasse, cuidaria de dizer que nao se deixasse impressionar com Marlene Dietrich em chamas. E daria a Maria Emilia a mesma e bela explicação que um dia Valério Andrade ensinou a mim: cinema e ilusão .
 (Vicente de Serejo)